As mentiras que os homens contam e os hipócritas juram não contar - parte 2
(Urbano Leonel Sant' Anna - 5 julho 2009)
O que é a mentira?
É tudo aquilo que se diz com intenção de ludibriar.
Se alguém conta uma inverdade, mas não sabe disto, não está mentindo e, sim, cometendo um equívoco. Se alguém conta uma ou mais verdades com a intenção de induzir ao erro, está fazendo uso, essencialmente, da mentira. Esta técnica, chamada sofisma já teve a sua época áurea na história e era ensinada aos poucos que podiam pagar pelas vantagens de tal conhecimento por filósofos conhecidos como sofistas. O surgimento, neste cenário, de Sócrates, que se ocupou de organizar e classificar os vocábulos, dando-lhes funções e reduzindo-lhes a liberdade, diminuiu enormemente a influência dos sofistas.
Quem mente?
Já afirmei que todo ser capaz de fazer uso da sua mente evoluída também faz uso da mentira. Não sejamos tão exclusivistas, porém, com a mentira. Até mesmo entre os vegetais e entre os animais, a mentira está presente. Se ainda parecerem poucos os milhares de exemplos em que as plantas e os bichos fingem ser o que não são, uns se passando pelos outros, intra e inter-reinos, ludibriando os outros através dos sentidos para conseguirem alguma vantagem ou para não sofrerem algum prejuízo, muitas vezes letal, citarei então o exemplo cientificamente comprovado de uma gorila chamada Koko que, após ter, num acesso de fúria, arrebentado uma pia de aço, tentou culpar o seu gatinho pelo estrago, usando a linguagem dos sinais. Será que, junto com a linguagem dos sinais, os cientistas ensinaram a mentira? Não parece ser o caso.
Por que mentimos?
O homem mente por que tem uma mente capaz de desenvolver uma linha de raciocínio que, embora falsa, pode lhe parecer suficientemente plausível para convencer o outro. Ou seja, mentimos porque acreditamos poder fazê-lo e sair ilesos. Nem sempre a nossa avaliação está correta. A mente demora alguns anos para atingir o grau de amadurecimento necessário para mentir com a sofisticação necessária para convencer. Um dos meus irmãos, por exemplo, lá pelos seus 3 anos de idade, tinha o hábito de tapar os olhos com as mãos para poder roubar do prato onde esfriavam os bolinhos de chuva que a minha mãe estava fritando, pois ele acreditava que, se ele não enxergava nada, ninguém poderia enxergá-lo. Os motivos para mentirmos são infindáveis e serão justamente estes motivos, além das intenções, da extensão e das conseqüências, que farão com que uma determinada mentira seja mais ou menos censurável no âmbito social.
Toda a mentira é má?
É claro que não, senão estaríamos todos condenados às chamas eternas. Quem nunca ouviu falar da famosa "mentira caridosa", por exemplo? Há, além deste, uma infinidade de outros motivos para se mentir e muitos deles não são imorais na sua essência. Se a reação, digamos, a uma verdade inocente é invariavelmente uma atitude egoísta e infantil, é óbvio que há de chegar o dia em que esta verdade terá de ser omitida ou maquiada para evitar o já conhecido stress de sempre. Esta entra no rol daquelas mentiras domésticas que muitas vezes nos vemos obrigados a contar.
O que seria a mentira imoral?
Imoral é toda a mentira que visa a satisfação de um objetivo egoísta, sem levar em conta os sentimentos do outro. É o avesso da mentira caridosa, que visa a proteção do outro ou da relação. A mentira imoral se aproveita da boa-fé do interlocutor para angariar vantagens ou para causar prejuízo.
E a mentira pública?
Enganar uma ou duas pessoas em troca de qualquer tipo de vantagem já é uma atitude bem imoral. Por outro lado, há outros tipos de mentira que, por serem publicadas, podem enganar milhares e até milhões de pessoas. Quando, por exemplo, Jader Barbalho quis nos fazer crer em 2001 que ignorava os desvios ocorridos no Banpará e, ainda mais, que não se beneficiou deles. A gravidade e a imoralidade deste tipo de mentira é impossível de se comparar àquelas de uma ridícula mentira doméstica. Muito pior quando, animado pela impunidade, o infrator insiste dezenas de vezes no delito. Quem não soube da gigantesca cara-de-pau do então deputado João Alves de Almeida, um dos "Anões do Orçamento", ao afirmar no início da década de 90 que havia ganhado 13 vezes na loteria, o que explicaria a sua riqueza? Preciso lembrar a todos do dinheiro que nunca é do Maluf? Lembram da amnésia seletiva do Sarney, que faz com que o pobrezinho se esqueça dos benefícios recebidos dos cofres do Estado, bem como das suas contas no exterior e de mais uma infinidade de falcatruas que dariam para soterrá-lo sob um grande lixão de dinheiro sujo? E o presidente Lula que, quando o assunto é corrupção dentro ou próximo do seu partido ou da sua base aliada, apesar de ser "o cara", representa a melhor síntese dos 3 macaquinhos nossos velhos conhecidos: não vê, não escuta e não fala. Sem esquecer do pior de todos, em todos os sentidos, o ex- (já vai tarde!) presidente George W. Bush, afirmando reiteradamente que precisava invadir o Iraque, pois Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa e poderia fazer uso delas a qualquer momento. Vamos fazer um pequeno exercício de reflexão? Imaginemos a improvável hipótese de um grande e inúmeras vezes confirmado ludibriador de extensão intercontinental se descobrir vítima de uma pequena mentira doméstica. Qual seria a força moral deste indivíduo de vir a público para acusar, nominada ou indiretamente, o infrator doméstico de mentiroso? Melhor esquecer, pois esta situação hipotética carece tanto de credibilidade, que não teria a menor chance de ocorrer na vida real. Só pode ser mentira. Ou será que não?
Para encerrar este difícil assunto com descontração, a letra de um sambinha em homenagem à mentira.
MENTIR É BOM
(Urbano Leonel Sant’ Anna - 30/08/2007)
Mentir é bom
E a sinceridade,
Impopular
É mais legal
Maquiar a verdade
E encenar
Desde a ralé
A personalidades de escol
Refinando a maneira de usar
A peneira e tapar
A luz do sol
Mentiu o Pedro
O lobo não viu
Pra nosso espanto
Mentiu São Pedro,
Mentiu e mentiu
E esse é santo
Bibliotecas
Repletas de heróis
Caras-de-pau
Que são nome de rua
E coisa e tal
Com estátua
E status de imortal
Mas a verdade
É que, sem a mentira,
O mundo pára
É muita gente
Que não quer levar
Tapa na cara
É osso duro
É um sapo
Que, se se engole,
Dói
Dói no ouvido
De cada um de nós
E por isso a mentira
É quem tem voz

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