quarta-feira, 4 de novembro de 2009

ANGELUS DIALETICORUM



(A César o que é de César: gravura de M. C. Escher - ANJO/DEMÔNIO)

 


Nos dias de hoje me sinto tão aviltado como na época em que escrevi este poema. A grande diferença é que desta vez acho que a batalha não vale a pena, já que o que existe para ser recuperado nunca deixou de estar dentro de mim. Existem pessoas que não podem ser contrariadas e é por causa deste tipo de gente que o mundo não tem chance de ser um lugar melhor para se viver.






(A César o que é de César: imagem de marcorsi.flogbrasil.terra.com.br)




ANGELUS DIALETICORUM

(Urbano Leonel Sant' Anna - 5 agosto 2008)



Quando eu

Há mil milênios

Pousei o suave éter de meus pés

No árido chão

Da Terra primordial

Era exatamente assim

Como tantos outros antes de mim

Impecavelmente puro e perfeito,

A essência do céu e do sol,

Ignorava o bem

Pois que não sabia o mal

 


Quando a noite dominou suprema

Há uma centena de séculos

Não sabia o que esperar

Brilhando ostensivamente

Solitária chama na escuridão

Foi exatamente assim

Como tantos outros antes de mim

As hordas me odiaram

Tentaram me assassinar



Quando me arrancaram o primeiro pedaço

Conheci a dor

Precisei aprender a reagir

Antes que se fosse o segundo

A batalha foi interminável

E eu quase sucumbi

Nem ouso explicar

A que custo não me levaram

Esquartejado

Aos poucos

Pedaço por pedaço



Por sorte, o mal

Anda de braços com a covardia

E quando as hordas

Começaram a sangrar

E a tombar

Fugiram

Deixando os que jaziam

No chão embebido em sangue e luz



Mas não foi pouco cruel

O castigo que me aplicaram

Mutilado

Abismado

Aniquilado

Lancei mão de uma miríade

De retalhos de demônios

Dos milhares que atapetavam

Uma grande extensão da planície

No breu da escuridão

E lutei para me recompor

E urrei ao me reerguer






Não sei qual foi a dor maior

A dos golpes

Que antes me dilaceraram

Ou a do horror da reconstrução

De meu corpo

Rejeitando o mal



Com o tempo,

A dor cedeu

Bem como a rejeição

E, felizmente,

Sobrevivi



Hoje posso afirmar

Sem pecar por exagero

Que eu finalmente evoluí

Sou exatamente assim

Como tantos outros antes de mim

Aprendi a comer carne

Mato para o meu sustento

E pela minha sobrevivência

E pela vida dos meus



Sou plenamente capaz

Capaz de todo o bem

Capaz do maior mal

Uma horrenda criatura

Entre a luz e a escuridão

Aprendendo com as feridas

Entre os erros e os acertos

Cuja única barreira

Para um bem maior

Cujo único empecilho

Para a destruição final

É a minha maior capacidade:

A liberdade de escolher




(A César o que é de César: imagem de bbb.blogs.sapo.pt e, no meio do poema, imagem de beautiful.blogs.sapo.pt)

Cuidado! Plágio é crime previsto no Código Penal. As penas por violação ao direito autoral chegam a 4 anos de reclusão mais multa. Ao plagiador também pode ser imputado o crime de falsidade ideológica. Eu não costumo ser condescendente com este tipo de atitude.

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sábado, 10 de outubro de 2009

Maravilhosa

Ressurjo das cinzas para trazer uma nova composição. É um misto de acalanto e habanera e não necessita maiores explicações. Aproveito para agradecer a todos os amigos de verdade que continuam visitando este blog, apesar do marasmo que aqui tem imperado nos últimos tempos.
 




(Imagem exaustivamente garimpada no Google Imagens)


Mais Além
(Urbano Leonel Sant' Anna - 03/10/2009)

Você é diferente da mulher que eu sonhava
Você não me parece o amor que eu queria
Você vai mais além, você é maravilhosa
É muito mais do que ousou a minha fantasia

E eu não posso mais me conter
Não dá pra simplesmente aceitar
E grito ao mundo um grande "por quê?"
A vida só faz nos afastar?

Não dá, eu não consigo entender
Um beija-flor sem seu jasmim
Por que eu longe de você
Se você nasceu pra mim?

Você é diferente da mulher que eu sonhava
É muito mais do que ousou a minha fantasia



Cuidado! Plágio é crime previsto no Código Penal. As penas por violação ao direito autoral chegam a 4 anos de reclusão mais multa. Ao plagiador também pode ser imputado o crime de falsidade ideológica. Eu não costumo ser condescendente com este tipo de atitude.

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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Por que eu canto?

127837(A César o que é de César: imagem daqui)

Um dia me perguntaram:
"Urbano, por que a música? Por que o canto?"
Eu fiquei pensando, pensando...
Tentando decifrar o mistério desta vocação.
E a resposta me veio inspirada
Em letra rimada
Feito samba-canção


Por que eu canto?

(Urbano Leonel Sant' Anna - 25/8/2009)


Cantando eu acho remédio
Cantando eu acho lugar
O mundo ficou diferente
Depois que aprendi a cantar,
Depois que beijei a alegria,
Depois que abracei o luar
Enquanto eu tiver a garganta
Vai ser bem difícil de me derrubar

Olha, eu não estou nem aí
Não quero saber de nada
Comecei de manhãzinha
E canto até de madrugada

Não me questione o motivo
Só sei que é como rezar
Pergunte a algum passarinho,
Talvez ele possa explicar
Eu, mesmo nascido sem asa,
Cantando consigo voar
Encontra aquele que canta
Bastante razão no seu próprio cantar

 

Cuidado! Plágio é crime previsto no Código Penal. As penas por violação ao direito autoral chegam a 4 anos de reclusão mais multa. Ao plagiador também pode ser imputado o crime de falsidade ideológica. Eu não costumo ser condescendente com este tipo de atitude.

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

As mentiras que os homens contam e os hipócritas juram não contar (parte 2 - final)

Pinóquio

As mentiras que os homens contam e os hipócritas juram não contar - parte 2
(Urbano Leonel Sant' Anna - 5 julho 2009)
O que é a mentira?
É tudo aquilo que se diz com intenção de ludibriar.

Se alguém conta uma inverdade, mas não sabe disto, não está mentindo e, sim, cometendo um equívoco. Se alguém conta uma ou mais verdades com a intenção de induzir ao erro, está fazendo uso, essencialmente, da mentira. Esta técnica, chamada sofisma já teve a sua época áurea na história e era ensinada aos poucos que podiam pagar pelas vantagens de tal conhecimento por filósofos conhecidos como sofistas. O surgimento, neste cenário, de Sócrates, que se ocupou de organizar e classificar os vocábulos, dando-lhes funções e reduzindo-lhes a liberdade, diminuiu enormemente a influência dos sofistas.
Quem mente?
Já afirmei que todo ser capaz de fazer uso da sua mente evoluída também faz uso da mentira. Não sejamos tão exclusivistas, porém, com a mentira. Até mesmo entre os vegetais e entre os animais, a mentira está presente. Se ainda parecerem poucos os milhares de exemplos em que as plantas e os bichos fingem ser o que não são, uns se passando pelos outros, intra e inter-reinos, ludibriando os outros através dos sentidos para conseguirem alguma vantagem ou para não sofrerem algum prejuízo, muitas vezes letal, citarei então o exemplo cientificamente comprovado de uma gorila chamada Koko que, após ter, num acesso de fúria, arrebentado uma pia de aço, tentou culpar o seu gatinho pelo estrago, usando a linguagem dos sinais. Será que, junto com a linguagem dos sinais, os cientistas ensinaram a mentira? Não parece ser o caso.

Por que mentimos?
O homem mente por que tem uma mente capaz de desenvolver uma linha de raciocínio que, embora falsa, pode lhe parecer suficientemente plausível para convencer o outro. Ou seja, mentimos porque acreditamos poder fazê-lo e sair ilesos. Nem sempre a nossa avaliação está correta. A mente demora alguns anos para atingir o grau de amadurecimento necessário para mentir com a sofisticação necessária para convencer. Um dos meus irmãos, por exemplo, lá pelos seus 3 anos de idade, tinha o hábito de tapar os olhos com as mãos para poder roubar do prato onde esfriavam os bolinhos de chuva que a minha mãe estava fritando, pois ele acreditava que, se ele não enxergava nada, ninguém poderia enxergá-lo. Os motivos para mentirmos são infindáveis e serão justamente estes motivos, além das intenções, da extensão e das conseqüências, que farão com que uma determinada mentira seja mais ou menos censurável no âmbito social.

Toda a mentira é má?
É claro que não, senão estaríamos todos condenados às chamas eternas. Quem nunca ouviu falar da famosa "mentira caridosa", por exemplo? Há, além deste, uma infinidade de outros motivos para se mentir e muitos deles não são imorais na sua essência. Se a reação, digamos, a uma verdade inocente é invariavelmente uma atitude egoísta e infantil, é óbvio que há de chegar o dia em que esta verdade terá de ser omitida ou maquiada para evitar o já conhecido stress de sempre. Esta entra no rol daquelas mentiras domésticas que muitas vezes nos vemos obrigados a contar.

O que seria a mentira imoral?
Imoral é toda a mentira que visa a satisfação de um objetivo egoísta, sem levar em conta os sentimentos do outro. É o avesso da mentira caridosa, que visa a proteção do outro ou da relação. A mentira imoral se aproveita da boa-fé do interlocutor para angariar vantagens ou para causar prejuízo.

E a mentira pública?
Enganar uma ou duas pessoas em troca de qualquer tipo de vantagem já é uma atitude bem imoral. Por outro lado, há outros tipos de mentira que, por serem publicadas, podem enganar milhares e até milhões de pessoas. Quando, por exemplo, Jader Barbalho quis nos fazer crer em 2001 que ignorava os desvios ocorridos no Banpará e, ainda mais, que não se beneficiou deles.  A gravidade e a imoralidade deste tipo de mentira é impossível de se comparar àquelas de uma ridícula mentira doméstica. Muito pior quando, animado pela impunidade, o infrator insiste dezenas de vezes no delito. Quem não soube da gigantesca cara-de-pau do então deputado João Alves de Almeida, um dos "Anões do Orçamento", ao afirmar no início da década de 90 que havia ganhado 13 vezes na loteria, o que explicaria a sua riqueza? Preciso lembrar a todos  do dinheiro que nunca é do Maluf? Lembram da amnésia seletiva do Sarney, que faz com que o pobrezinho se esqueça dos benefícios recebidos dos cofres do Estado, bem como das suas contas no exterior e de mais uma infinidade de falcatruas que dariam para soterrá-lo sob um grande lixão de dinheiro sujo? E o presidente Lula que, quando o assunto é corrupção dentro ou próximo do seu partido ou da sua base aliada, apesar de ser "o cara", representa a melhor síntese dos 3 macaquinhos nossos velhos conhecidos: não vê, não escuta e não fala. Sem esquecer do pior de todos, em todos os sentidos, o ex- (já vai tarde!) presidente George W. Bush, afirmando reiteradamente que precisava invadir o Iraque, pois Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa e poderia fazer uso delas a qualquer momento. Vamos fazer um pequeno exercício de reflexão? Imaginemos a improvável hipótese de um grande e inúmeras vezes confirmado ludibriador de extensão intercontinental se descobrir vítima de uma pequena mentira doméstica. Qual seria a força moral deste indivíduo de vir a público para acusar, nominada ou indiretamente, o infrator doméstico de mentiroso? Melhor esquecer, pois esta situação hipotética carece tanto de credibilidade, que não teria a menor chance de ocorrer na vida real. Só pode ser mentira. Ou será que não?

Para encerrar este difícil assunto com descontração, a letra de um sambinha em homenagem à mentira.

MENTIR É BOM
(Urbano Leonel Sant’ Anna - 30/08/2007) 

Mentir é bom
E a sinceridade,
Impopular
É mais legal
Maquiar a verdade
E encenar
Desde a ralé
A personalidades de escol
Refinando a maneira de usar
A peneira e tapar
A luz do sol 

Mentiu o Pedro
O lobo não viu
Pra nosso espanto
Mentiu São Pedro,
Mentiu e mentiu
E esse é santo
Bibliotecas
Repletas de heróis
Caras-de-pau
Que são nome de rua
E coisa e tal
Com estátua
E status de imortal 

Mas a verdade
É que, sem a mentira,
O mundo pára
É muita gente
Que não quer levar
Tapa na cara
É osso duro
É um sapo
Que, se se engole,
Dói
Dói no ouvido
De cada um de nós
E por isso a mentira
É quem tem voz

 




Cuidado! Plágio é crime previsto no Código Penal. As penas por violação ao direito autoral chegam a 4 anos de reclusão mais multa. Ao plagiador também pode ser imputado o crime de falsidade ideológica. Eu não costumo ser condescendente com este tipo de atitude.

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domingo, 5 de julho de 2009

As mentiras que os homens contam e os hipócritas juram não contar (parte 1)

maskhalloween-sawpig
(A César o que é de César: imagem de máscara daqui.)

As mentiras que os homens contam
e
os hipócritas juram não contar - parte 1
(Urbano Leonel Sant' Anna - 5 julho 2009)

Existem muitas mentiras por aí, de todos os tamanhos e com as características mais diversas imagináveis, mas nenhuma há de ser tão descarada como aquela do indivíduo, pretensamente único ser perfeito na face da terra, que ousar bradar cheio de convicção e até um certo embargo na voz "eu não minto".

Este assunto certamente mereceria um ou vários tratados, mas não é a minha intenção. Antes de falar sobre a safada da Mentira, é preciso dar pelo menos uma espiada na sua irmã virtuosa, a Verdade. Esperem aí, este assunto é um dos meus preferidos e tenho estudado com fervor as virtudes desta donzela por anos a fio. Em mais de 5.400 anos de história da humanidade, ou seja, desde o advento da escrita, o homem se debruça sobre este grande mistério: O que é a verdade? Quem sabe? Quem pode garantir com absoluta certeza? Que sinuca de bico! Pelo menos uma dezena de mitologias (antigamente chamadas de religiões), dos mais diversos cantos do planeta, traziam em seu panteon um deus de quem se dizia ser "a verdade e a luz", assim como Jesus afirmou "Eu sou o caminho, a verdade e a luz" e "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Filósofos após filósofos dedicaram a sua vida inteira para tentar entender um pouco deste grande mistério, mas até os dias de hoje ninguém tem uma resposta precisa para a pergunta. Afinal, o que é a verdade?


Quero dividir com vocês algumas das minhas humildes conclusões acerca do assunto:

- Cada indivíduo tem direito à sua própria verdade. Não existem verdades absolutas.

- A verdade de cada um pode estar mais próxima ou mais afastada de uma verdade maior, a assim chamada verdade coletiva, também conhecida como "senso comum".

- Se cada indivíduo é o resultado das experiências e dos aprendizados acumulados a partir da assimilação da verdade coletiva de cada grupo de que participa ou participou, a verdade de cada indivíduo é formada pela maneira como ele harmoniza as várias verdades coletivas.

- Pode-se dizer que a verdade individual depende da visão que o indivíduo, ser pensante e com capacidade crítica, tem das diversas verdades coletivas ou dos princípios que dão corpo ao senso comum.

- As verdades individuais não são imutáveis. Nenhuma verdade é imutável.

- A verdade de um outro indivíduo pode ser capaz de se mostrar superior à nossa própria verdade e, assim, num exercício de inteligência da nossa parte, substituí-la.

- Conviver é ser capaz de harmonizar a própria verdade com a verdade de cada pessoa de nosso convívio.

- Quanto menos distante da nossa verdade for a verdade do outro, mais próximo do outro nós nos sentiremos.

- Quanto mais verdades dois indivíduos forem capazes de compatibilizar, maior será a sua afinidade. Quanto maior a afinidade, maior será a confiança entre ambos.

- No momento em que há confiança suficiente entre duas pessoas diferentes, os escudos podem ser baixados e começa a haver um desejo de se permitirem compartilhar idéias e novas verdades, geralmente aquelas que estão mais distantes das verdades coletivas.

- A verdade coletiva de um grupo não é, necessariamente, a verdade coletiva de um grupo diferente. Não se pode esquecer que não existem verdades absolutas. Cada grupo é formado por vários indivíduos, logo a verdade coletiva daquele grupo é o pensamento resultante das vivências e dos sentires do grupo em questão.

 

Se entender a verdade é um trabalho tão árduo, como é que alguém pode ter certeza do que é a mentira, afinal de contas, não é uma a ausência da outra, não é a mentira uma verdade da qual se retirou a luz? E não é a ausência de luz conhecida como treva? E não é a treva também o próprio mal ou a ausência do bem? Ou seja, a verdade está para a mentira, assim como a luz para as trevas, a vida para a morte e o bem para o mal e, em última análise, Deus para o Diabo, que seria o pai da mentira. Porém, se analisarmos friamente a questão, perceberemos que a mentira é uma necessidade fisiológica de todo o ser pensante, capaz de fazer uso da sua mente evoluída. Penso, logo minto. Será que o fato de a mentira ser uma característica indissociável do ser humano faz de todos nós, Homo sapiens sapiens, criaturas indignas?

(continua...)


Cuidado! Plágio é crime previsto no Código Penal. As penas por violação ao direito autoral chegam a 4 anos de reclusão mais multa. Ao plagiador também pode ser imputado o crime de falsidade ideológica. Eu não costumo ser condescendente com este tipo de atitude.

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