Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

As mentiras que os homens contam e os hipócritas juram não contar (parte 2 - final)

Pinóquio

As mentiras que os homens contam e os hipócritas juram não contar - parte 2
(Urbano Leonel Sant' Anna - 5 julho 2009)

O que é a mentira?
É tudo aquilo que se diz com intenção de ludibriar.

Se alguém conta uma inverdade, mas não sabe disto, não está mentindo e, sim, cometendo um equívoco. Se alguém conta uma ou mais verdades com a intenção de induzir ao erro, está fazendo uso, essencialmente, da mentira. Esta técnica, chamada sofisma já teve a sua época áurea na história e era ensinada aos poucos que podiam pagar pelas vantagens de tal conhecimento por filósofos conhecidos como sofistas. O surgimento, neste cenário, de Sócrates, que se ocupou de organizar e classificar os vocábulos, dando-lhes funções e reduzindo-lhes a liberdade, diminuiu enormemente a influência dos sofistas.

Quem mente?
Já afirmei que todo ser capaz de fazer uso da sua mente evoluída também faz uso da mentira. Não sejamos tão exclusivistas, porém, com a mentira. Até mesmo entre os vegetais e entre os animais, a mentira está presente. Se ainda parecerem poucos os milhares de exemplos em que as plantas e os bichos fingem ser o que não são, uns se passando pelos outros, intra e inter-reinos, ludibriando os outros através dos sentidos para conseguirem alguma vantagem ou para não sofrerem algum prejuízo, muitas vezes letal, citarei então o exemplo cientificamente comprovado de uma gorila chamada Koko que, após ter, num acesso de fúria, arrebentado uma pia de aço, tentou culpar o seu gatinho pelo estrago, usando a linguagem dos sinais. Será que, junto com a linguagem dos sinais, os cientistas ensinaram a mentira? Não parece ser o caso.

Por que mentimos?
O homem mente por que tem uma mente capaz de desenvolver uma linha de raciocínio que, embora falsa, pode lhe parecer suficientemente plausível para convencer o outro. Ou seja, mentimos porque acreditamos poder fazê-lo e sair ilesos. Nem sempre a nossa avaliação está correta. A mente demora alguns anos para atingir o grau de amadurecimento necessário para mentir com a sofisticação necessária para convencer. Um dos meus irmãos, por exemplo, lá pelos seus 3 anos de idade, tinha o hábito de tapar os olhos com as mãos para poder roubar do prato onde esfriavam os bolinhos de chuva que a minha mãe estava fritando, pois ele acreditava que, se ele não enxergava nada, ninguém poderia enxergá-lo. Os motivos para mentirmos são infindáveis e serão justamente estes motivos, além das intenções, da extensão e das conseqüências, que farão com que uma determinada mentira seja mais ou menos censurável no âmbito social.

Toda a mentira é má?
É claro que não, senão estaríamos todos condenados às chamas eternas. Quem nunca ouviu falar da famosa "mentira caridosa", por exemplo? Há, além deste, uma infinidade de outros motivos para se mentir e muitos deles não são imorais na sua essência. Se a reação, digamos, a uma verdade inocente é invariavelmente uma atitude egoísta e infantil, é óbvio que há de chegar o dia em que esta verdade terá de ser omitida ou maquiada para evitar o já conhecido stress de sempre. Esta entra no rol daquelas mentiras domésticas que muitas vezes nos vemos obrigados a contar.

O que seria a mentira imoral?
Imoral é toda a mentira que visa a satisfação de um objetivo egoísta, sem levar em conta os sentimentos do outro. É o avesso da mentira caridosa, que visa a proteção do outro ou da relação. A mentira imoral se aproveita da boa-fé do interlocutor para angariar vantagens ou para causar prejuízo.

E a mentira pública?
Enganar uma ou duas pessoas em troca de qualquer tipo de vantagem já é uma atitude bem imoral. Por outro lado, há outros tipos de mentira que, por serem publicadas, podem enganar milhares e até milhões de pessoas. Quando, por exemplo, Jader Barbalho quis nos fazer crer em 2001 que ignorava os desvios ocorridos no Banpará e, ainda mais, que não se beneficiou deles.  A gravidade e a imoralidade deste tipo de mentira é impossível de se comparar àquelas de uma ridícula mentira doméstica. Muito pior quando, animado pela impunidade, o infrator insiste dezenas de vezes no delito. Quem não soube da gigantesca cara-de-pau do então deputado João Alves de Almeida, um dos "Anões do Orçamento", ao afirmar no início da década de 90 que havia ganhado 13 vezes na loteria, o que explicaria a sua riqueza? Preciso lembrar a todos  do dinheiro que nunca é do Maluf? Lembram da amnésia seletiva do Sarney, que faz com que o pobrezinho se esqueça dos benefícios recebidos dos cofres do Estado, bem como das suas contas no exterior e de mais uma infinidade de falcatruas que dariam para soterrá-lo sob um grande lixão de dinheiro sujo? E o presidente Lula que, quando o assunto é corrupção dentro ou próximo do seu partido ou da sua base aliada, apesar de ser "o cara", representa a melhor síntese dos 3 macaquinhos nossos velhos conhecidos: não vê, não escuta e não fala. Sem esquecer do pior de todos, em todos os sentidos, o ex- (já vai tarde!) presidente George W. Bush, afirmando reiteradamente que precisava invadir o Iraque, pois Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa e poderia fazer uso delas a qualquer momento. Vamos fazer um pequeno exercício de reflexão? Imaginemos a improvável hipótese de um grande e inúmeras vezes confirmado ludibriador de extensão intercontinental se descobrir vítima de uma pequena mentira doméstica. Qual seria a força moral deste indivíduo de vir a público para acusar, nominada ou indiretamente, o infrator doméstico de mentiroso? Melhor esquecer, pois esta situação hipotética carece tanto de credibilidade, que não teria a menor chance de ocorrer na vida real. Só pode ser mentira. Ou será que não?

Para encerrar este difícil assunto com descontração, a letra de um sambinha em homenagem à mentira.


MENTIR É BOM
(Urbano Leonel Sant’ Anna - 30/08/2007) 

Mentir é bom
E a sinceridade,
Impopular
É mais legal
Maquiar a verdade
E encenar
Desde a ralé
A personalidades de escol
Refinando a maneira de usar
A peneira e tapar
A luz do sol 

Mentiu o Pedro
O lobo não viu
Pra nosso espanto
Mentiu São Pedro,
Mentiu e mentiu
E esse é santo
Bibliotecas
Repletas de heróis
Caras-de-pau
Que são nome de rua
E coisa e tal
Com estátua
E status de imortal 

Mas a verdade
É que, sem a mentira,
O mundo pára
É muita gente
Que não quer levar
Tapa na cara
É osso duro
É um sapo
Que, se se engole,
Dói
Dói no ouvido
De cada um de nós
E por isso a mentira
É quem tem voz

 

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Domingo, 5 de Julho de 2009

As mentiras que os homens contam e os hipócritas juram não contar (parte 1)

maskhalloween-sawpig
(A César o que é de César: imagem de máscara daqui.)

As mentiras que os homens contam
e
os hipócritas juram não contar - parte 1
(Urbano Leonel Sant' Anna - 5 julho 2009)

Existem muitas mentiras por aí, de todos os tamanhos e com as características mais diversas imagináveis, mas nenhuma há de ser tão descarada como aquela do indivíduo, pretensamente único ser perfeito na face da terra, que ousar bradar cheio de convicção e até um certo embargo na voz "eu não minto".

Este assunto certamente mereceria um ou vários tratados, mas não é a minha intenção. Antes de falar sobre a safada da Mentira, é preciso dar pelo menos uma espiada na sua irmã virtuosa, a Verdade. Esperem aí, este assunto é um dos meus preferidos e tenho estudado com fervor as virtudes desta donzela por anos a fio. Em mais de 5.400 anos de história da humanidade, ou seja, desde o advento da escrita, o homem se debruça sobre este grande mistério: O que é a verdade? Quem sabe? Quem pode garantir com absoluta certeza? Que sinuca de bico! Pelo menos uma dezena de mitologias (antigamente chamadas de religiões), dos mais diversos cantos do planeta, traziam em seu panteon um deus de quem se dizia ser "a verdade e a luz", assim como Jesus afirmou "Eu sou o caminho, a verdade e a luz" e "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Filósofos após filósofos dedicaram a sua vida inteira para tentar entender um pouco deste grande mistério, mas até os dias de hoje ninguém tem uma resposta precisa para a pergunta. Afinal, o que é a verdade?


Quero dividir com vocês algumas das minhas humildes conclusões acerca do assunto:

- Cada indivíduo tem direito à sua própria verdade. Não existem verdades absolutas.

- A verdade de cada um pode estar mais próxima ou mais afastada de uma verdade maior, a assim chamada verdade coletiva, também conhecida como "senso comum".

- Se cada indivíduo é o resultado das experiências e dos aprendizados acumulados a partir da assimilação da verdade coletiva de cada grupo de que participa ou participou, a verdade de cada indivíduo é formada pela maneira como ele harmoniza as várias verdades coletivas.

- Pode-se dizer que a verdade individual depende da visão que o indivíduo, ser pensante e com capacidade crítica, tem das diversas verdades coletivas ou dos princípios que dão corpo ao senso comum.

- As verdades individuais não são imutáveis. Nenhuma verdade é imutável.

- A verdade de um outro indivíduo pode ser capaz de se mostrar superior à nossa própria verdade e, assim, num exercício de inteligência da nossa parte, substituí-la.

- Conviver é ser capaz de harmonizar a própria verdade com a verdade de cada pessoa de nosso convívio.

- Quanto menos distante da nossa verdade for a verdade do outro, mais próximo do outro nós nos sentiremos.

- Quanto mais verdades dois indivíduos forem capazes de compatibilizar, maior será a sua afinidade. Quanto maior a afinidade, maior será a confiança entre ambos.

- No momento em que há confiança suficiente entre duas pessoas diferentes, os escudos podem ser baixados e começa a haver um desejo de se permitirem compartilhar idéias e novas verdades, geralmente aquelas que estão mais distantes das verdades coletivas.

- A verdade coletiva de um grupo não é, necessariamente, a verdade coletiva de um grupo diferente. Não se pode esquecer que não existem verdades absolutas. Cada grupo é formado por vários indivíduos, logo a verdade coletiva daquele grupo é o pensamento resultante das vivências e dos sentires do grupo em questão.

 

Se entender a verdade é um trabalho tão árduo, como é que alguém pode ter certeza do que é a mentira, afinal de contas, não é uma a ausência da outra, não é a mentira uma verdade da qual se retirou a luz? E não é a ausência de luz conhecida como treva? E não é a treva também o próprio mal ou a ausência do bem? Ou seja, a verdade está para a mentira, assim como a luz para as trevas, a vida para a morte e o bem para o mal e, em última análise, Deus para o Diabo, que seria o pai da mentira. Porém, se analisarmos friamente a questão, perceberemos que a mentira é uma necessidade fisiológica de todo o ser pensante, capaz de fazer uso da sua mente evoluída. Penso, logo minto. Será que o fato de a mentira ser uma característica indissociável do ser humano faz de todos nós, Homo sapiens sapiens, criaturas indignas?

(continua...)

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Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Ode esquizofrênica à rejeição

iluminado.jpg

Ode esquizofrênica à rejeição
(Urbano Leonel Sant' Anna - 2/7/2009)

É não
Você não
Percebe não
Bem não
Vindo não
Não mais
Percebe você
Coisa não
Você age
Mas não
Percebe
Psi você
Ico não
Copa mais
Opa bem
Pata vindo
Coisa que
Como age
Ata não
Cop não
Ico não
Psi não
Um que
Age si
Coisa
Não

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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Preconceito e orgulho... de quê, mesmo?

20090617-racismo(A César o que é de César: imagem daqui)

Preconceito e orgulho... de quê, mesmo?
(Urbano Leonel Sant' Anna - 29 junho 2009)

Neste sábado, o grupo vocal de que faço parte se reuniu na casa de uma das colegas para uma espécie de "ensaio-retiro", ou seja, um ensaio que começou às 9h30 e terminou depois das 16h. Terminado o ensaio, durante o café da tarde gentilmente oferecido pelos donos da casa que tão bem nos receberam, a nossa regente trouxe à baila o assunto de uma atitude racista individual ocorrida durante um jogo de futebol e noticiada na mídia. A seguir, ela nos relatou vários exemplos vergonhosos de manifestações de racismo sofridas por ela por ser negra. Ao chegar em casa, depois do ensaio, por coincidência ou brincadeira do destino, recebi este e-mail contendo o texto que incluo agora neste artigo para que possamos refletir sobre esta barbaridade que ainda acontece em pleno século XXI.


Para nossa reflexão

EU TAMBÉM APLAUDIRIA DE PÉ!!!!!

Sentar ao lado de um negro?
Eu! Sentar ao lado de um negro?

Uma mulher branca, de aproximadamente 50 anos, chegou ao seu lugar na classe econômica e viu que estava ao lado de um passageiro negro.
Visivelmente perturbada, chamou a comissária de bordo.
- Qual o problema, senhora?, pergunta uma comissária.
- Não está vendo - respondeu a senhora - vocês me colocaram ao lado de um negro. Não posso ficar aqui. Você precisa me dar outra cadeira.
- Por favor, acalme-se - disse a aeromoça - infelizmente, todos os lugares estão ocupados. Porém, vou ver se ainda temos algum disponível.
A comissária se afasta e volta alguns minutos depois.
- Senhora, como eu disse, não há nenhum outro lugar livre na classe econômica. Falei com o comandante e ele confirmou que não temos mais
nenhum lugar nem mesmo na classe executiva. Temos apenas um lugar na primeira classe.
E antes que a mulher fizesse algum comentário, a comissária continua:
- Veja, é incomum que a nossa companhia permita a um passageiro da classe econômica se assentar na primeira classe. Porém, tendo em vista as circunstâncias, o comandante pensa que seria escandaloso obrigar um passageiro a viajar ao lado de uma pessoa desagradável.
E, dirigindo-se ao senhor negro, a comissária prosseguiu:
- Portanto, senhor, caso queira, por favor, pegue a sua bagagem de mão, pois reservamos para o senhor um lugar na primeira classe...
E todos os passageiros próximos, que, estupefatos, assistiam à cena, começaram a aplaudir, alguns de pé.

(Se você é contra o racismo, envie esta mensagens aos seus amigos, mas não a delete sem ter mandado pelo menos a uma pessoa'.)

A minha impressão é que esta deveria ser a norma em todas as companhias aéreas, além de encaminhar imediatamente o preconceituoso à delegacia mais próxima, seja no local de origem, se o avião ainda não decolou, ou no aeroporto de destino, se já partiu.

Muito cuidado com o preconceito, seja ele qual for, étnico-racial, socioeconômico, sexual, não importa, e lembrem-se que o pior preconceito é aquele que está tão enraizado dentro da gente que nem nos damos conta. Alguns exemplos: piadinhas étnicas; elogios contraditórios, como "negro de alma branca"; expressões populares, como "ih, tem branco no samba" ou "que negrice" ou "não judia de mim" ou ainda "isto é coisa de viado". Não podemos esquecer que, não importa o que digam e pensem alguns, somos todos iguais.

Um abraço a todos e uma boa semana!

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Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

O amor não é

amor-nao(A César o que é de César: imagem daqui.)

Hoje, Dia dos Namorados, muitas pessoas costumam fazer listas sobre o amor: "Amar é...", "O amor é...", etc.
Numa iniciativa de utilidade pública para aqueles que estão começando a experimentar o romance, eu trago uma lista de coisas que decididamente o amor não deve e nem quer ser. Esta realidade não deve ser ignorada e pode significar grandes dores de cabeça para o namorado ou a namorada que não prestar a devida atenção e teimar em persistir no equívoco. Os itens desta relação se baseiam em fatos e são lições que eu aprendi (e sigo aprendendo) a duras penas ao longo de décadas de vida. Espero que seja de alguma ajuda aos jovens amantes.

O amor não é:
(Urbano Leonel Sant' Anna - 11 junho 2009)

- Conveniência de carências;

- Embate de egos;

- Liberdade vigiada;

- Permissão para fazer de alguém o seu lixão particular;

- Compatível com mesquinharias;

- Palco para desfile de máscaras;

- Renúncia à individualidade;

- Tábua de salvação para nenhum náufrago;

- Concurso de popularidade;

- Camisa-de-força;

- Jogo leviano de sedução;

- Toma-lá-dá-cá;

- Objeto de teste;

- Cego (ao contrário do que diz a sabedoria popular);

- Matéria para se convencer alguém;

- Terreno para se cultivar o egoísmo;

- Desmemoriado;

- Pista de provas para forçar ao extremo a paciência de ninguém;

- Invulnerável;

- Licença para matar alguém por sufocamento;

- Justificativa para aceitar maus tratos;

- Mendicância de atenção;

- Carta-branca pra invasão;

- Certificado de propriedade;

- Garantia vitalícia de afeto.

 

Para terminar, o testemunho em forma de poema de alguém que sabia como poucos sobre o amor, o nosso amado poetinha Vinícius de Moraes.

 

                 Soneto de Fidelidade
                   (Vinicius de Moraes)

        De tudo ao meu amor serei atento
        Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
        Que mesmo em face do maior encanto
        Dele se encante mais meu pensamento.

        Quero vivê-lo em cada vão momento
        E em seu louvor hei de espalhar meu canto
        E rir meu riso e derramar meu pranto
        Ao seu pesar ou seu contentamento

        E assim, quando mais tarde me procure
        Quem sabe a morte, angústia de quem vive
        Quem sabe a solidão, fim de quem ama

        Eu possa me dizer do amor (que tive):
        Que não seja imortal, posto que é chama
        Mas que seja infinito enquanto dure.

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